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Educação: fluidez
e complexidade
"O sujeito educador precisa adquirir a dinâmica do mercúrio:
encarnar uma forma mutável produtiva, que acompanhe
a nova plasticidade mundial, mas com uma toxidez positiva,
que contagie o aluno com o desejo e prazer pelo conhecimento
em movimento"
Wendel Freire é Especialista em Tecnologia
Educacional, Mestrando em Educação e Educomunicador.
Nos anos 60 e 70, diversos autores procuraram dar conta
das diversas mudanças na educação
impelidas pela vertiginosa evolução da
mídia. Os mídia-educadores (ou educomunicadores)
vieram experimentar a mídia em sala-de-aula,
ou em ambientes alternativos a ela, a fim de levar à
educação o colorido que ela não
teriam sabido acompanhar, tornando-se obsoleta.
Marshall McLuhan foi capaz de prever importantes mudanças
na Escola, numa época em que ainda não
se falava em uma convergência entre comunicação
e educação. A visão do papa da
comunicação chegou a perceber que as escolas
dispensam, mais e mais, energias diversas, preparando
os escolares para um mundo que já não
existe. E antecipou que haverá um dia - talvez
este já seja uma realidade - em que as crianças
aprenderão muito mais - e muito mais rapidamente
- em contato com o mundo exterior do que no recinto
da escola. McLuhan também deu conta de que era
necessário que a educação fosse
permanente, abandonando a cultura do diploma, fechada
num corpo de conhecimentos (Lima, 1978). Felizmente,
este educomunicador avant garde errou ao prenunciar
que o professor desapareceria e que o livro daria lugar
às publicações periódicas;
mas é incontestável o quanto a informação
abundante vem transformando o papel do professor e do
livro.
Hoje, mergulhados no ciberespaço, estamos nos
habituando à maneira de leitura não-seqüencial
e fluida presente no hipertexto. A aparência do
hipertexto pode, à primeira vista, ser fragmentada,
mas devemos entendê-lo, tomando a semântica,
o hibridismo internet (inter, do latim, reciprocidade;
net, do inglês, rede). Segundo Pierre Lévy,
a rede tem uma relação de interdependência,
o que nos remete ao esforço de Edgar Morin e
seu pensamento complexo. Morin defende que devemos abandonar
o pensamento compartimentado, passando a fazer conexões
(links) entre a parte e o todo, a buscar relações
e inter-retro-ações entre cada fenômeno
e seu contexto.
A ciência econômica é a ciência
humana mais sofisticada e a mais formalizada - exemplifica
Morin -; contudo, os economistas são incapazes
de estar de acordo sobre suas predições,
geralmente errôneas (Morin, 2004). Tal erro acontece
porque a economia é a ciência mais avançada
na matemática e a mais atrasada humanamente.
Morin quer, com seu pensamento complexo, reformar a
cabeça cheia - aquela com o saber acumulado,
empilhado, sem um princípio de organização
e de seleção - e fazê-la bem-feita,
dispondo ao mesmo tempo de uma aptidão geral
para colocar e tratar os problemas e de princípios
organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar
sentido (Idem). A cabeça bem-feita esbarra num
paradoxo para se efetivar como projeto global: para
reformar o pensamento deve-se reformar a escola, mas
como reformar a escola sem, antes, reformar o pensamento?
Um outro problema com a escola surge com aquela frase
feita que diz: a escola prepara para a vida. O aluno
que hoje deixa a faculdade passou cerca de 20 anos de
sua vida sendo preparado para um mundo que já
não existe, pois é cada vez menor o período
em que todos os conhecimentos são redesenhados.
Esse anacronismo já foi apontado por McLuhan,
que antecipou com sucesso o quadro de velocidade informacional
que atingiria nossos dias, a celeridade das descobertas,
das novidades tecnológicas etc.
Para as próximas gerações, necessitamos
focar nossos esforços pedagógicos no processo,
na busca de soluções comuns, na construção
social do conhecimento e não mais nos conteúdos
prontos, no conhecimento fechado. Focar no processo
significa preparar o aluno para utilizar todos os mecanismos
de pesquisa disponíveis e municiá-lo da
memória rizomática da rede de computadores.
O sujeito, outrora centralizado, hoje fluido, passou
a viver num processo contínuo de mutação,
seja no relacionamento com o outro, seja na construção
da própria identidade. E essa fluidez atravessa
e é atravessada pela informática, que,
conforme Pierre Lévy, não é uma
tecnologia definida e sim um processo contínuo.
Essa metáfora da fluidez utilizada durante o
texto foi criada pelo sociólogo Zygmunt Bauman
para explicar o estágio presente da era moderna,
designado por outros autores como pós-moderno.
Segundo ele a modernidade líquida se caracteriza
pela extraordinária mobilidade e inconstância,
pela ausência de dimensões espaciais claras.
O sujeito educador precisa adquirir a dinâmica
do mercúrio: encarnar uma forma mutável
produtiva, que acompanhe a nova plasticidade mundial,
mas com uma toxidez positiva, que contagie o aluno com
o desejo e prazer pelo conhecimento em movimento
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